O que aprendemos com a tragédia de 2008 no Vale do Itajaí

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Foto: Patrick Rodrigues

Os dez anos da tragédia são um momento para lembrar o drama vivido naquele período, para os amigos e familiares chorarem as perdas provocadas pelos deslizamentos. Mais do que isso, é também uma oportunidade para refletir sobre o que foi feito desde então e onde ainda precisamos avançar mesmo passados 10 anos.

Entre os pontos em que houve evolução destacam-se a estrutura de Defesa Civil de Blumenau e investimentos estaduais como sobrelevação de barragens e a instalação de radares meteorológicos.

Já a falta de conscientização das pessoas para não ocupar locais de perigo e um mapeamento que detalhe os riscos das áreas mais críticas são melhorias apontadas como necessárias. Tudo para construir uma compreensão que minimize as chances de um novo episódio traumático como o que devastou a região uma década atrás.

O que avançou
Estrutura

A equipe de Defesa Civil de Blumenau passou de seis profissionais em 2008 para 40. A estrutura tem oito viaturas e ganhou status de secretaria com a criação da Secretaria de Defesa do Cidadão, voltada a temas de prevenção. Junto criou-se uma diretoria de Geologia, que anteriormente não existia. Em Gaspar, também houve reforço. Segundo o atual coordenador Rafael Araújo de Freitas, o órgão passou de um diretor para seis pessoas – dois servidores cedidos, um coordenador e três estagiários. O aumento é visto como parte de uma reestruturação do setor. Além disso, uma rede de 100 voluntários ajuda em períodos de crise. Em Ilhota, a Defesa Civil segue com um coordenador, um servidor e um automóvel Doblô à disposição.

Meteorologia própria

Os blumenauenses também passaram a contar com o Alertablu, um sistema municipal de meteorologia, que apresenta previsões do tempo detalhadas pelo território da cidade. O serviço também conta com um aplicativo para celular que permite emitir alertas e notificar a Defesa Civil.

Educação

A Defesa Civil de Blumenau também promove programas como o Agente Mirim, que leva às escolas do ensino fundamental lições de prevenção e ocupação correta das áreas na cidade.

Abrigos

O número de abrigos temporários para casos de cheias passou de 32 para 60 depois de 2008, em Blumenau. Esse aumento surgiu para atender regiões altas da cidade que até a catástrofe de novembro não sofriam com situações de enchentes, mas que tiveram ocorrências de movimentação de massas. Em Gaspar, um novo cadastro de abrigos foi criado e soma 23 locais. Em Ilhota, há 10 abrigos.

Comunicação

Em regiões como o Baú, em Ilhota, em novembro de 2008 os moradores ficaram sem energia elétrica e internet, telefone celular não funcionava. O acesso a outros bairros era impedido por pontos de alagamentos na estrada geral. Hoje, uma empresa de telefonia ativou antena na região e permite acesso a ligações por aparelhos móveis. Os pontos mais baixos da estrada devem ser elevados no início do próximo ano, segundo a prefeitura. Um serviço nacional oferece mensagens à população cadastrada alertas por mensagens de celular.

Radares e barragens

Assim como Blumenau, Santa Catarina também avançou na prevenção de desastres naturais. Alguns dos principais investimentos foram os radares meteorológicos – o de Lontras, que cobre a região do Vale do Itajaí, e outros dois em Araranguá no Sul, e de Chapecó, no Oeste –, a sobrelevação das barragens de Taió e Ituporanga e a construção e o Centro Regional de Defesa Civil, erguido no Complexo Esportivo do Sesi para centralizar o trabalho em caso de emergências, são alguns dos reforços.

Mapeamento de risco geológico

Blumenau ganhou um novo mapa de potencial risco a deslizamento. O levantamento identificou 15 mil edificações na cidade que estariam em área considerada de alto risco. O número representa 8,6% do total de 180 mil edificações de toda a cidade. Outros 90% das construções estariam em áreas de risco médio, baixo ou inexistente. Em Gaspar, um mapeamento apontou a existência de 58 áreas de risco.

O que precisamos avançar

Conscientização

Depois de 2008, Blumenau começou a ter outro olhar para os morros e áreas de risco. No entanto, manter esse aprendizado com o passar do tempo e o distanciamento temporal da catástrofe é um desafio apontado por lideranças como o prefeito da cidade na época, João Paulo Kleinübing (DEM). Segundo o geógrafo Manoel Ricardo Dourado Correia, um dos pontos a evoluir seria o bom senso da população na hora de observar as condições do terreno para construir.

– Muitos dos nossos terrenos que são nessas áreas de médio risco apresentam potencial para construção, mas precisam desse olhar especial. Não é simplesmente chegar e ocupar sem nenhum critério técnico, elas têm potencial de ocupação, mas com restrição. Às vezes é preciso fazer um muro ou melhorar a drenagem. Se não fizer isso, as áreas amarelas, de médio risco, podem se tornar áreas de alto risco – alerta o geógrafo.

É o caso de uma casa na Rua Pedro Krauss Sênior, no bairro Vorstadt, que veio abaixo em maio deste ano. Uma das suspeitas dos técnicos é de uma intervenção na casa de cima, que teria mudado o escoamento da água da chuva e prejudicado a residência de baixo (foto).

Centro de Operações

Outro avanço que ainda não ocorreu é a construção do Centro de Operações Blumenau (COB). O espaço ficará onde funcionava a Câmara de Vereadores, no prédio da prefeitura, e irá reunir câmeras de monitoramento do trânsito e boxes para abrigar bombeiros, Defesa Civil, Exército e outras instituições em caso de anormalidades ou tragédias climáticas. O centro faz parte do Plano de Segurança Viária, que foi aprovado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e está orçado em 4,5 milhões de dólares. O prefeito Mário Hildebrandt (PSB) afirma que a prefeitura finaliza os últimos documentos e pretende lançar a licitação do plano viário, que inclui o COB, nos próximos dias.

Estudo dos riscos

Segundo o geólogo Gerson Ricardo Müller, agora que a prefeitura fez o mapa de suscetibilidade, que segundo o setor de Geologia da prefeitura também analisa a magnitude e a frequência do perigo nos terrenos da cidade, outro avanço importante poderia ser a prefeitura se responsabilizar pelo levantamento de estabilidade. Esse estudo apontaria o risco real das edificações, com sondagens e outras avaliações feitas individualmente em cada terreno.

Atualmente, o município faz análises prévias com visitas, topografia e permite a ocupação de áreas de risco mediante obras de contenção. O diagnóstico mais detalhado da melhor solução para o terreno precisa ser contratado pelo morador com um engenheiro particular responsável.

– Dentro dessas áreas é que agora precisa ser feita a segunda parte, que é bem mais criteriosa: a análise da estabilidade. Essa análise é custosa, o município não tem condições. Mas existem caminhos que precisam ser discutidos – aponta o geólogo.

No setor de Geologia da prefeitura, essa carta geotécnica é vista como muito cara para o poder público assumir em toda a cidade. No entanto, é reconhecida como um estágio de investigação, algo a ser feito futuramente por etapas. Hoje, a Defesa Civil informa que o novo mapeamento de potencial risco a permite fazer exigências aos moradores de acordo com o grau de dificuldade de ocupação. Em caso de necessidade, são feitas avaliações no local.

Lei para padronizar ações

O coordenador da Defesa Civil de Gaspar, Rafael Araújo de Freitas, defende a criação de leis que padronizem a competência e a estrutura mínima da Defesa Civil para as cidades, de acordo com a população. Assim como padrões para projetos como o Agente Mirim e Defesa Civil nas Escolas.

Incluir a prevenção na grade curricular

Outra sugestão do coordenador da Defesa Civil de Gaspar é incluir temas como autoproteção, prevenção de desastres e ocupação correta do solo na grade curricular das escolas.

Histórico de ocupação em áreas de risco

Apesar do aumento na conscientização, a quantidade de pessoas em áreas de risco ainda é um assunto a ser trabalhado em Blumenau e região. Em julho deste ano, um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontou Blumenau como primeira cidade da região Sul com mais pessoas residindo em área considerada de risco.

No ranking nacional, que reúne informações de 872 municípios, os blumenauenses aparecem em 17º lugar. Os dados foram coletados em 2010, mas são a base oficial e atual de dados e indicam que na época havia 78,3 mil pessoas na cidade em regiões vulneráveis – 25% da população da época.

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